Trás-os-Montes expõe-se aqui nos seus lugares recônditos. Das entranhas da terra que se abrem para receber uma oliveira jovem às mãos cansadas que se alimentam depois de arrancar os frutos das árvores. Esta é uma viagem pelo azeite de pedra e de metal. Dos lugares onde se cruzam etnias e culturas. Daqueles que reproduzem conhecimentos ancestrais, revisitados ano após ano com o aperfeiçoamento da modernidade. Lugares onde, no século XXI, o azeite é ainda ritual, alimento, saúde, subsistência, memória. Redescobre-se aqui a poesia das máquinas, hoje automáticas, herméticas e assépticas; mas lembram-se os espaços de pedra, suados dia e noite por homens dirigidos pela batuta de um mestre como peças de uma engrenagem precisa e delicada. A viagem do azeite atravessa nestas páginas as paisagens naturais e humanas de Trás-os-Montes.

O propósito do trabalho que se apresenta é o de enquadrar regionalmente um produto alimentar. Produto este que se caracterizou ao longo da sua história milenar, quase sem variação, por ser símbolo de distinção. Este estatuto justificou-se pela dificuldade em produzir azeite de boa qualidade: a delicadeza da oliveira e do seu fruto obrigam a um conhecimento apurado das técnicas de cultivo e produção de azeite para manter as características de sabor, nutrição e benefício para a saúde que se lhe reconhecem. A associação de ânforas cheias de azeite de oliveiras sagradas a recompensas dos Jogos Panatenaicos (séc. IV a. C.), entre outros, evidencia a importância simbólica e económica deste óleo já no mundo helénico. A viagem do azeite pelo Mediterrâneo iniciou-se com as embarcações fenícias, que o inseriram em Portugal pelo Sul. O Nordeste do País consumiu este produto por influência romana, muito antes dos primeiros registos de produção que remontam ao século XVI. A paisagem olivícola foi-se estruturando nesta região com as suas especificidades, diferenciando-se das demais. E esta singularidade resulta do entrecruzar do terreno com as práticas humanas. Para se entender o que significa produzir azeite em Trás-os-Montes é fundamental saber ver. E esta visão tem de incluir o material e o imaterial; tem de se transmitir em expressões e esgares, não só na solidez do inerte como na mobilidade constante do esforço e da técnica apurada ao longo de gerações.

Constança Vieira de Andrade